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Entre-dois: breve comentário de trechos do livro de Marcus André Vieira, "A Escrita do Silêncio"

  • annaluizaas
  • 24 de out. de 2019
  • 4 min de leitura

por Maricia Ciscato - membro EBP/AMP


Nem na cidade, nem no cemitério. Os corpos que carregavam a lepra no Paraná do início do século passado ficavam segregados a um não-lugar só comparável aos encontrados nos mais diversos campos de segregação, concentração ou extermínio que atravessaram e seguem atravessando a História. Os leprosários paranaenses eram um depósito dos corpos que não podiam mais circular entre os vivos, mas tampouco podiam ser destinados a um lugar entre os mortos.[1]


Nesse “entre-dois”, radicalmente sem complementariedade, o humano pode tentar expurgar suas chagas e lutar insistentemente para ali confinar os horrores que lhe acossam o vivo do corpo. Essa espécie de não-lugar, entre dois-mundos, entre vivos e mortos, pode ser o ambiente mais profícuo tanto para a angústia, quanto para o ódio. Entre o imaginário e o real, um espaço não de todo simbolizável,[2] pronto a proliferar com todo tipo de sombra e gozo para o que, em nós, não encontra destino.


Como sabemos, o amor narcísico se sustenta no reconhecimento de uma imagem que teria banido de si um gozo “mau”; logo, ele odeia o que possa vir a perturbar essa imagem ideal e lhe borrar as fronteiras.[3] Para mantê-la, um outro, externo (supostamente alheio ao “Eu” ou ao “Nós”), precisa tomar a forma do repugnante.


Freud, em 1930, anunciava por onde andaria a humanidade sempre que determinada a localizar apenas fora de si o que lhe é êxtimo:[4] “Não se pode senão imaginar, com preocupação, sobre o que farão os soviéticos depois que tiverem eliminado seus burgueses.”[5]


É um caminho sem fim se tomado em sua pior radicalidade. Uma vez extinguido o “outro” que sustenta o insuportável em nós mesmo, será preciso que esse insuportável seja encarnado em outro ainda, infinitamente – até qual fim?


Esse “outro”, a princípio tão bem definido e externo ao Eu, ameaça habitar justamente a área em nosso ser que se mostra, por vezes, borrada, ilimitada, não localizável nem dentro e nem fora. Para sustentá-lo do “lado de fora”, é preciso um esforço constante, sempre e cada vez mais ameaçado, quanto mais sólido se faz.


Existir no entre-dois

Curiosamente, é exatamente por aí, neste ambiente pouco delineável, por onde perambula a angústia e o ódio de nossa existência, que – segundo minha leitura do trecho abaixo do livro de Marcus André – podemos extrair uma experiência de vida ímpar. Uma vida que tampouco cabe nos contornos da imagem narcísica ideal. Se ousarmos um pouco mais, justamente no ponto em que esperneamos vigorosamente para não seguir, podemos extrair, dali – não sem algum trabalho –, algo novo e especialmente vivo.


(...) o sonho lembra como este espaço em nada é desértico, já que inclui um gozo híbrido que não é, nem exatamente meu, nem do Outro, mas que pode ser tanto de um quanto de outro. O corpo vivo é feito desse espaço confuso de lalíngua que é também espaço de encontro. (...) (VIEIRA, 2018)[6]


Visitar nossos sonhos e pesadelos para revirá-los, retorcê-los e “escová-los”, como diria Manoel de Barros[7]. Para extrair, do espaço em que se criam, não apenas o objeto vivo e sem sentido a nos sustentar na vida, como também o silêncio e o barulho que as letras que nos marcam carregam em si, formando lalíngua que borbulha em nosso corpo, como diz Marcus André. Fazer do mortífero – que pode haver num entre-dois – um litoral de encontro pulsante. Eis aí alguns dos “efeitos de vida” que se pode obter quando nos dispomos aos (des)caminhos de uma análise.


Para saber um pouco sobre isso, não é condição ter chegado ao fim de um percurso analítico. Em meio a ele, por vezes e vezes, através da presença orientada do analista, cada analisante se depara, mesmo que num lampejo, com um modo de experimentar a existência que destoa da embarreirada satisfação da cena cotidiana e o relança de forma única à vida.


(...) o analista não seria aquele que, na cidade, agita e faz vibrar, justamente, este espaço? Não é quem habita o litoral entre o mundo onírico, confuso, e a luz de cada manhã de segunda-feira? Que introduz o analisante a seu modo único de existir no entre-dois, na lalíngua de seu sinthoma, e a propor a seu destino alguma consonância com ela, ainda que desencontrada e contingente?” (VIEIRA, 2018)


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[1] “Isolavam-se os doentes longe da cidade, de todas as cidades do estado, achava-se o lugar para o impuro, a poluição, a degenerescência. Por serem infectadas, essas pessoas afastavam-se do espectro de populações desejáveis para a ocupação do Paraná. Deterioradas em sua identidade, o seu lugar era o outro, onde iriam compor uma sobrevida à sua morte humana à espera da sua morte biológica. Um limbo, que em algo lembra um teatro de sombras da sua existência anterior”. Olinto, Beatriz Anselmo. Trecho retirado da Tese de doutorado de Beatriz Olinto, no programa de Pós Graduação em História da UFSC, 2002, intitulada Pontes e Muralhas: diferença, lepra e tragédia – Paraná início do séc;. XX. P.62.


[2] Ferreira da Silva, Rômulo. O ódio estruturante. Disponível em: https://ix.enapol.org/boletim-oci-1/, acesso em 17 de setembro de 2019.


[3] Laurent, Eric. Retirada do vídeo disponível https://ix.enapol.org/boletim-oci-3/, acesso em 17 de setembro de 2019.


[4]Vieira, Marcus André. Extimidades. Disponível em https://www.ebp.org.br/correio_express/2019/08/29/extimidades-1/, acesso em 18 de setembro de 2019.


[5] Fred, Sigmund. “Mal estar na civilização” [1930(1929)]. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, Vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996. P. 119.


[6] Vieira, Marcus André. A Escrita do Silêncio (voz e letra em uma análise). Rio de Janeiro: Subversos, 2018. P.103.


[7] “Logo pensei de escovar palavras. Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Que queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos.” Manoel de Barros. Escova.

Colmena 0101 by Lizuain Lizuain.com febrero 2018 Brutalism, Composition / architecture, composition, photo, urban


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